Entre carreatas virtuais, manifestações em universidades, paródias musicais e referências da cultura pop, jovens utilizam novas estratégias de mobilização política no segundo turno da eleição presidencial.
A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou novos espaços com a participação da geração Z. Além dos comícios e das carreatas tradicionais, apoiadores dos dois candidatos passaram a utilizar jogos on-line, músicas, memes e manifestações universitárias para ampliar o debate político entre os jovens.
Nesse contexto, as redes sociais e as plataformas de entretenimento se transformaram em ambientes de mobilização eleitoral. Dessa maneira, a política se aproxima da linguagem utilizada por eleitores que cresceram conectados à internet.
Entre as principais iniciativas estão as carreatas virtuais no Roblox, os atos em universidades e as campanhas que recorrem à cultura pop para atrair a atenção do público jovem.
Roblox transforma carreatas eleitorais em eventos virtuais Uma das iniciativas que chamaram a atenção durante a campanha foi a realização de carreatas políticas dentro do Roblox, plataforma de jogos on-line que permite aos usuários criar e explorar ambientes virtuais.
Nesses eventos, apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro organizam manifestações com avatares, veículos, buzinaços e faixas de apoio aos candidatos. Assim, os participantes reproduzem características das carreatas realizadas nas ruas, mas dentro de uma cidade digital.
Em uma das mobilizações de apoiadores de Flávio Bolsonaro, por exemplo, os participantes utilizaram roupas nas cores verde e amarelo, além de placas com mensagens políticas. Além disso, o evento contou com a simulação de um carro de som associado ao chamado “Bloquinho do 22”.
Por outro lado, apoiadores de Lula organizaram grupos para coordenar a participação dos jogadores nas carreatas virtuais. As imagens divulgadas nas redes sociais mostram veículos em fila e avatares vestidos de vermelho, com mensagens favoráveis ao presidente.
Dessa forma, o ambiente dos jogos passou a funcionar como mais um espaço de expressão política. Ao mesmo tempo, os participantes utilizam recursos visuais e interações característicos da cultura digital para divulgar suas posições.
Manifestações e carreatas pró-Lula e pró-Flávio são organizadas no Roblox. — Foto: Reprodução/Instagram Universidades também viram palco da disputa Além das mobilizações virtuais, a disputa eleitoral chegou às universidades. Em São Paulo, estudantes de diferentes instituições participaram de atos públicos em apoio aos dois candidatos.
No início de outubro, estudantes do Mackenzie convocaram uma manifestação em apoio a Lula, na Rua Maria Antônia. Na ocasião, alunos da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) também participaram do ato.
A mobilização ocorreu após a divulgação de um comunicado interno do Mackenzie que proibia manifestações partidárias dentro da instituição, segundo a reportagem que relatou o episódio.
Poucos dias depois, estudantes do Mackenzie e de instituições como Insper, ESPM e Ibmec participaram de uma manifestação em apoio a Flávio Bolsonaro, em frente ao Insper, na Vila Olímpia.
Durante o ato, os participantes cantaram músicas com críticas à esquerda e utilizaram palavras de ordem contra Lula. Além disso, as manifestações contaram com a presença de representantes políticos.
No evento favorável a Lula, as deputadas federais eleitas Luna Zarattini (PT) e Natalia Boulos (PSOL) discursaram. Já a mobilização em apoio a Flávio Bolsonaro contou com a participação do deputado estadual Lucas Bove (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por videochamada.
Assim, as universidades se tornaram mais um espaço de expressão das posições políticas da juventude durante a campanha.
Funk, fandoms e cultura pop entram na campanha A música também ganhou espaço nas estratégias de mobilização eleitoral. Entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro, paródias de funk e o “Bloquinho do 22” passaram a integrar as iniciativas de engajamento nas redes sociais.
Já entre os apoiadores de Lula, ganharam destaque ações relacionadas a fandoms de artistas e materiais gráficos com referências à cultura pop. Nesse caso, adesivos e conteúdos digitais utilizam elementos visuais familiares aos jovens para divulgar mensagens políticas.
Essas iniciativas demonstram como os apoiadores incorporam linguagens do entretenimento à comunicação eleitoral. Em vez de depender exclusivamente de discursos tradicionais, os grupos recorrem a músicas, referências culturais e conteúdos que podem ser compartilhados rapidamente.
Consequentemente, a disputa política também passa a ocupar espaços que os jovens utilizam para se divertir, acompanhar artistas e interagir com outras pessoas.
Especialistas explicam a nova comunicação política A professora Issaaf Karhawi, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), pesquisa a cultura dos influenciadores digitais e destaca a importância de adaptar a comunicação política a diferentes gerações e canais.
Segundo a pesquisadora, o uso de formatos variados ajuda a aproximar o debate político de públicos que consomem informação por diferentes meios.
Da mesma forma, Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, avalia que as novas ferramentas ampliam práticas de mobilização que já fazem parte da história da juventude brasileira.
O pesquisador lembra que estudantes e jovens participaram de movimentos políticos por meio das linguagens próprias de cada época. Entre os exemplos estão o movimento estudantil, os festivais de música, os caras-pintadas e o hip-hop.
Entretanto, a principal diferença está na escala alcançada pela internet. Com a expansão do ambiente digital, jogos on-line, fã-clubes, funk e memes passaram a circular com maior velocidade e alcance.
Por isso, as campanhas encontram novas possibilidades para divulgar mensagens e estimular a participação de apoiadores.
Política e entretenimento disputam a atenção dos jovens A participação da geração Z nas mobilizações de Lula e Flávio Bolsonaro evidencia a diversidade de formatos utilizados no segundo turno presidencial. De um lado, as ações presenciais continuam relevantes; de outro, as plataformas digitais ampliam os espaços de interação política.
Nesse cenário, as carreatas no Roblox, as paródias musicais, os fandoms e os adesivos mostram como a disputa eleitoral também se desenvolve nos ambientes de convivência e entretenimento.
Além disso, a utilização dessas ferramentas revela uma adaptação da comunicação política aos hábitos de consumo de conteúdo das novas gerações.
Apesar disso, a presença de apoiadores em jogos, manifestações ou redes sociais não permite concluir qual candidato tem maior apoio entre os jovens. Afinal, essas iniciativas representam formas de participação política, mas não demonstram, isoladamente, a preferência de toda a geração Z.