Fundação mantém sede em campus privado desde 2019. Contratos chegam a R$ 179,7 mil por mês, enquanto documentos sobre avaliação do imóvel não aparecem nas fontes públicas consultadas.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) mantém sua sede no mesmo endereço desde 2019. Na época, o contrato definiu o imóvel como uma instalação “temporária”.
Porém, quase sete anos depois, a fundação continua no mesmo local. O endereço fica na Avenida Professor Nilton Lins, nº 3.259, Bloco K, dentro do campus da Universidade Nilton Lins.
Além disso, a FAPEAM mantém outro contrato para utilizar salas no Bloco J. Juntos, os dois contratos custam R$ 179.666,81 por mês.
Assim, o gasto anual chega a aproximadamente R$ 2,15 milhões.
Contrato principal recebeu seis aditivos O contrato CT nº 003/2019 previa a locação do imóvel para instalar a “sede temporária” da FAPEAM.
Desde então, a fundação prorrogou o contrato seis vezes. Em 2025, o aluguel chegou a R$ 157.772,21 por mês .
Com esse valor, a despesa anual alcançou R$ 1.893.266,52 .
Além disso, o contrato prevê reajuste pelo IGP-M.
A vigência do sexto aditivo terminou em 2 de dezembro de 2025. Entretanto, as fontes públicas consultadas não mostram um novo contrato que esclareça a continuidade da sede após essa data.
Bloco J aumentou a despesa mensal Em 2024, a FAPEAM acrescentou outro espaço ao complexo.
O contrato CT nº 003/2024 prevê três salas no Bloco J. O aluguel acrescentou R$ 21.894,60 por mês à despesa.
Portanto, os dois contratos alcançaram:
R$ 157.772,21 mensais pelo contrato principal;R$ 21.894,60 mensais pelas salas do Bloco J;R$ 179.666,81 em despesas mensais;aproximadamente R$ 2,15 milhões por ano . Empresa locadora tem vínculo com a Fundação Nilton Lins A MABLUMA Administradora de Bens e Participações Ltda., CNPJ nº 14.385.748/0001-64, aparece como locadora nos contratos analisados.
Segundo os cadastros públicos consultados, Maria Alice Vilela Lins e Barbara Lins de Queiroz aparecem como sócias-administradoras da empresa.
Além disso, Maria Alice também figura como diretora da Fundação Nilton Lins.
As duas administradoras aparecem ainda no quadro societário da Campus Empreendimentos Imobiliários Ltda.
Esses dados mostram vínculos societários públicos. No entanto, eles não comprovam favorecimento ou interferência na contratação.
Laudo de avaliação não aparece nas fontes consultadas Outro ponto chama atenção na análise dos documentos.
A reportagem não localizou, nas fontes públicas examinadas, laudo de avaliação do imóvel. Também não encontrou pesquisa comparativa de preços ou justificativa específica para a escolha daquele endereço.
A legislação permite a contratação direta de imóveis em determinadas situações. Contudo, o órgão precisa cumprir os requisitos previstos para justificar a escolha e avaliar o imóvel.
Por isso, a ausência desses documentos nas fontes consultadas cria uma lacuna de transparência.
Ainda assim, isso não significa que os documentos não existam. Eles podem integrar processos administrativos que não estejam disponíveis nas bases públicas analisadas.
Pagamentos à locadora chegam a R$ 3,89 milhões A execução orçamentária também mostra valores relevantes.
Entre 2019 e agosto de 2026, os registros públicos consultados apontam aproximadamente R$ 3,89 milhões em pagamentos à MABLUMA.
Além disso, os valores aumentaram ao longo dos anos.
Em 2019, os registros apontam cerca de R$ 110 mil em pagamentos.
Já nos oito primeiros meses de 2026, a soma chega a aproximadamente R$ 1,09 milhão .
Em janeiro deste ano, a FAPEAM registrou um pagamento de R$ 650.210,84 de uma única vez. O lançamento inclui despesas relacionadas ao exercício anterior.
Execução orçamentária apresenta diferenças Os registros também mostram diferenças entre empenhos, liquidações e pagamentos.
Na base examinada, os valores liquidados relacionados à MABLUMA chegam a aproximadamente R$ 4,74 milhões . Já os empenhos associados aos registros analisados somam cerca de R$ 3,47 milhões .
A diferença se aproxima de R$ 1,3 milhão .
Entretanto, esses números não permitem afirmar, isoladamente, que a FAPEAM realizou despesas sem cobertura orçamentária.
Para esclarecer a diferença, seria necessário acompanhar toda a movimentação contábil entre os exercícios. Nesse processo, entram restos a pagar, empenhos, liquidações e pagamentos realizados posteriormente.
Em 2020, por exemplo, a nota 2020NE00066 registra R$ 330 mil liquidados, enquanto o campo de empenho aparece zerado.
Já em 2021 e 2022, os registros também apresentam diferenças.
Portanto, os dados exigem uma análise contábil completa antes de qualquer conclusão.
FAPEAM funciona dentro de campus privado O endereço oficial da FAPEAM aparece nos documentos da própria fundação como Avenida Professor Nilton Lins, nº 3.259, Bloco K.
O documento também identifica o local como parte da Universidade Nilton Lins.
Assim, a fundação pública estadual mantém sua estrutura administrativa dentro de um campus privado mediante contratos de locação.
Ao mesmo tempo, o contrato original classificou a instalação como “temporária”.
O que a documentação comprova Os documentos analisados permitem confirmar que a FAPEAM manteve o contrato de 2019 por meio de seis aditivos.
Além disso, a fundação contratou espaços adicionais no Bloco J.
Em 2025, os dois contratos somavam R$ 179.666,81 por mês .
Os registros públicos também apontam pagamentos milionários à empresa responsável pela locação.
Por outro lado, os documentos consultados não permitem afirmar que houve sobrepreço, favorecimento ou irregularidade.
Da mesma forma, as diferenças entre empenhos, liquidações e pagamentos não permitem, sozinhas, apontar uma irregularidade contábil.
Também não é possível afirmar que a FAPEAM não produziu laudos ou pesquisas de preços. A reportagem apenas registra que não localizou esses documentos nas fontes públicas examinadas.
Perguntas permanecem sem resposta O caso levanta questões sobre a permanência da FAPEAM no imóvel.
Primeiro, por que uma sede classificada como “temporária” permaneceu no mesmo endereço por quase sete anos?
Segundo, quais estudos justificaram a continuidade da locação?
Além disso, qual avaliação técnica definiu o valor do aluguel?
Por fim, qual contrato atualmente garante a permanência da fundação no endereço?
Essas respostas dependem de documentos que não apareceram nas bases públicas consultadas.
Esta reportagem registra os fatos documentados e evita conclusões que os documentos não sustentam.
Os registros comprovam contratos, aditivos, valores, pagamentos e vínculos societários. Porém, eles não comprovam, por si só, sobrepreço, favorecimento ou irregularidade.
O ponto central permanece: a sede “temporária” da FAPEAM permaneceu por anos no mesmo endereço, enquanto os contratos de locação chegaram a R$ 179,7 mil por mês.
Nota metodológica A reportagem utilizou registros públicos da Unidade Gestora 016301, disponíveis no Portal da Transparência do Amazonas, com extração indicada em 4 de agosto de 2026.
Também foram analisados a Relação de Contratos Vigentes 2025 da FAPEAM, publicada em 3 de junho de 2025; a Decisão CD nº 061/2026; e consultas cadastrais públicas realizadas em 10 de agosto de 2026.
A reportagem trata os vínculos societários como informação cadastral. Portanto, nenhum trecho atribui ilícito, favorecimento ou irregularidade a pessoa determinada sem documentação que sustente essa conclusão.