Em 1977, rivalidade entre o vereador e jornalista Fábio Lucena e o empresário Andrade Neto chegou ao extremo com um duelo anunciado na Praça São Sebastião, em Manaus. O conflito envolveu acusações de atentado, ataques nos jornais e disputas judiciais durante a ditadura militar.
A história política e jornalística do Amazonas registra episódios em que disputas de poder ultrapassaram as páginas dos jornais e chegaram às tribunas parlamentares e aos tribunais. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu entre o vereador e jornalista Fábio Lucena, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e o empresário de comunicação Andrade Neto, proprietário do jornal A Notícia.
A rivalidade atingiu seu momento mais conhecido em 26 de novembro de 1977. Naquela manhã, Lucena compareceu à Praça São Sebastião, no Centro de Manaus, armado com um revólver calibre 38 e acompanhado pelo olhar atento de jornalistas, curiosos e policiais. Andrade Neto, por sua vez, não apareceu.
O encontro, anunciado publicamente como um duelo, não aconteceu. Entretanto, o episódio consolidou uma das histórias mais controversas do jornalismo e da política amazonense nos anos 1970.
De aliados políticos a adversários públicos Fábio Lucena e Andrade Neto nem sempre estiveram em lados opostos. Ambos integravam o MDB, partido que fazia oposição consentida ao regime militar. Além disso, Lucena trabalhou como redator político do jornal A Notícia entre 1969 e 1971.
O rompimento ocorreu após divergências profissionais e políticas. Segundo a versão apresentada por Lucena, Andrade Neto o proibiu de escrever no periódico depois que o vereador homenageou o jornal A Crítica na Câmara Municipal de Manaus.
Andrade Neto, por outro lado, retratava o antigo colaborador como alguém que teria se voltado contra quem lhe dera oportunidade profissional.
A partir daí, a relação transformou-se em uma disputa pública. Lucena passou a utilizar a tribuna parlamentar e as páginas de A Crítica para criticar o ex-empregador. Já A Notícia publicou artigos e notas com ataques ao vereador.
Além das divergências pessoais, o conflito envolvia disputas pela influência política dentro do MDB e articulações relacionadas ao futuro da política amazonense.
Atentado contra Fábio Lucena em 1975 A rivalidade ganhou contornos ainda mais graves na noite de 15 de fevereiro de 1975, quando Fábio Lucena sofreu um atentado no bairro de Aparecida, em Manaus.
De acordo com os registros históricos reunidos pelo pesquisador Durango Duarte, o vereador conversava com amigos nas proximidades de sua residência quando dois homens armados o abordaram.
Lucena foi agredido na cabeça e atingido por um disparo nas costas. O projétil passou de raspão, e ele sobreviveu após receber atendimento médico no Pronto-Socorro São José.
Os suspeitos fugiram em um Volkswagen Fusca azul, de placa AM-5402. A identificação do veículo levou as autoridades a investigar pessoas ligadas à sua locação.
O automóvel pertencia a uma locadora e havia sido alugado por Durval Dourado de Souza Carvalho, gerente da seção de medicamentos da Distribuidora Fink. Ele acabou preso preventivamente durante as investigações.
Investigação levantou suspeitas sobre possível motivação política Durante o inquérito, Durval apresentou versões divergentes sobre sua participação no episódio. Inicialmente, afirmou que pretendia se vingar de uma suposta discussão de trânsito com Lucena.
O vereador contestou essa explicação e declarou que não sabia dirigir nem possuía habilitação. Além disso, testemunhas afirmaram que os responsáveis pelos disparos eram outros dois homens e que Durval poderia ter permanecido no veículo dando cobertura à ação.
Posteriormente, o próprio investigado recuou da versão inicial e negou ter efetuado o disparo.
O delegado Rafael Romano, responsável pelo inquérito, manifestou a suspeita de que Durval atuasse como intermediário no crime. Outro elemento levantado pela investigação foi o recebimento de 40 mil cruzeiros por ele, horas antes do atentado, das mãos de Jean Dupuis, sócio da distribuidora.
A partir dessas informações, Lucena acusou Andrade Neto de ser o mandante intelectual do ataque. O vereador sustentava que o atentado teria relação com disputas políticas e com a influência do empresário nas articulações para a Prefeitura de Manaus.
Andrade Neto negou as acusações e utilizou as páginas de A Notícia para contestar as declarações do adversário.
Apesar das suspeitas e das acusações recíprocas, os registros apresentados na reconstituição histórica não comprovam, por meio de uma sentença definitiva, a existência de um mandante superior. Por isso, as alegações contra Andrade Neto devem ser compreendidas como acusações feitas por Lucena, e não como fatos judicialmente estabelecidos.
Praça São Sebastião virou palco de um duelo anunciado Em novembro de 1977, a rivalidade voltou ao centro do debate público. A coluna satírica Pinga-Fogo, publicada em A Notícia, passou a divulgar notas depreciativas contra Fábio Lucena.
As publicações incluíam provocações pessoais e desafios para que o vereador aceitasse um confronto físico com o proprietário do jornal.
Lucena respondeu na tribuna da Câmara Municipal. Em um pronunciamento inflamado, aceitou o desafio, mas estabeleceu condições diferentes das propostas pelo adversário: queria um duelo à bala, marcado para a Praça São Sebastião.
Na manhã de 26 de novembro, o vereador compareceu ao local armado e sob a vigilância de uma radiopatrulha. Repórteres de rádio e televisão acompanharam a movimentação, enquanto curiosos aguardavam a chegada de Andrade Neto.
O empresário, entretanto, não apareceu.
A ausência provocou interpretações distintas na imprensa. A Crítica apresentou a presença de Lucena como uma demonstração de coragem e criticou a ausência do rival. Já A Notícia tratou o episódio em tom satírico e sustentou que Andrade Neto havia proposto apenas uma luta corporal, não um confronto armado.
O jornal O Estado de S. Paulo também registrou o caso e destacou a divergência entre as condições exigidas pelos dois protagonistas.
Assim, o chamado duelo da Praça São Sebastião terminou sem confronto físico ou disparos. Ainda assim, tornou-se um símbolo da escalada de hostilidades entre os dois nomes.
Disputa chegou à Polícia Federal e aos tribunais Os conflitos entre Lucena e Andrade Neto não ficaram restritos aos jornais e à Câmara Municipal. A documentação do período também registra uma investigação envolvendo o vereador no âmbito da Lei de Segurança Nacional, durante a ditadura militar.
As referências históricas divergem quanto à relação direta desse procedimento com o episódio do duelo ou com declarações atribuídas a Lucena sobre integrantes da Polícia Militar.
Na Justiça comum, o parlamentar enfrentou outro processo relacionado às críticas dirigidas ao jornal A Notícia e aos seus diretores.
Em 30 de novembro de 1979, a juíza Alvarina Miranda de Araújo, da 8ª Vara Criminal de Manaus, condenou Fábio Lucena a um ano de detenção por difamação. O processo teve como base um discurso de 1978, no qual o vereador chamou o periódico de “verminoso” e “vendido ao governo”.
Como era réu primário, Lucena recebeu o benefício da suspensão condicional da pena, conhecido como sursis. A decisão foi objeto de recursos das partes envolvidas.
Fábio Lucena chegou ao Senado em 1982 Apesar dos confrontos políticos, das acusações e dos processos judiciais, Fábio Lucena manteve sua trajetória eleitoral.
Em 1982, três anos depois da condenação por difamação, ele foi eleito senador da República pelo Amazonas. A eleição ampliou sua projeção nacional e consolidou sua presença na política brasileira.
Sua trajetória ficou associada à atuação parlamentar, à oposição ao regime militar e aos embates públicos que marcaram sua carreira.
Um capítulo da história política e jornalística de Manaus A rivalidade entre Fábio Lucena e Andrade Neto permanece como um episódio relevante para compreender as relações entre imprensa, política e poder no Amazonas durante a década de 1970.
O caso também evidencia a importância de examinar criticamente os registros históricos. Na época, os dois principais jornais envolvidos na disputa apresentavam versões distintas dos acontecimentos, de acordo com suas posições e seus vínculos com os protagonistas.
Nesse cenário, separar acusações, versões jornalísticas, elementos de investigação e decisões judiciais é fundamental para reconstruir os fatos com rigor.
O duelo anunciado na Praça São Sebastião não terminou em confronto armado. Contudo, revelou a intensidade de uma rivalidade que atravessou redações, discursos parlamentares e tribunais, deixando marcas na memória política e jornalística do Amazonas.
A reconstituição deste episódio tem como referência o levantamento histórico de Durango Duarte sobre o embate entre Fábio Lucena e Andrade Neto.